domingo, 6 de abril de 2014

O Brasileiro contra Beethoven


Primeira página de "Coca-cola Killer", de António Victorino d'Almeida.



Em 1981 publicava-se em Portugal o primeiro romance de ficção assinado por António Victorino d'Almeida, figura incontornável na cena cultural Portuguesa desde há várias décadas.

António Victorino Goulartt de Medeiros e Almeida
Porventura melhor conhecido pela sua vasta obra como compositor e maestro de música clássica, publicada pela AvA Musical Editions, António Victorino dividiu-se, ao longo da sua longa carreira, por projectos em áreas tão diversas como a composição de bandas sonoras para filmes, a musicologia, a adaptação para teatro de várias obras (como A Relíquia, de Eça de Queiroz), ou a escrita de guiões originais para filmes e séries de televisão.

Esta vertente multifacetada do maestro deverá muito ao seu ambiente familiar, que desde muito cedo o colocou em contacto com um largo prisma de meios artísticos e referências culturais. Filho único do advogado António Victorino de Lacerda Fernandes e Almeida e da cantora lírica Maria Amélia de Medeiros, foi desde a infância incentivado a desenvolver o gosto pela música. O avô paterno, Achilles d'Almeida, era músico amador e poeta, bem como autor e encenador de várias peças de teatro. E a sua primeira sogra, Odette de Saint-Maurice, era escritora e locutora de rádio.

Considerado um menino-prodígio, António Victorino compôs a sua primeira obra aos cinco anos de idade. Aos sete, deu a sua primeira audição, interpretando peças de Mozart e Beethoven, além das suas próprias composições. Chegou a ser elogiado na altura numa crítica da publicação O Século Ilustrado, onde era baptizado de "Antonito" e considerado "maravilhoso o seu poder de interpretação".O seu primeiro concerto no Conservatório Nacional, em 1955, foi noticiado pelo Diário Popular.

Após concluir o Curso Superior de Piano no Conservatório, obteve uma bolsa para estudar composição em Viena de Áustria, onde foi aluno de Karl Schiske, que, segundo o próprio Victorino, o ensinou sobretudo a ouvir.

"... um dos espectáculos mais bonitos da minha vida foi ver o Schiske a ouvir música: a concentração, a ligação inteligente entre a sensibilidade e os sons. Era a negação de todo o consumismo do ruído ou do som, a absorção de todas as ideias, o diálogo de uma pessoa com a música através da audição."

Obteve a mais alta classificação nesta sua pós-graduação e, ainda em Viena, estudou ainda música contemporânea, música electrónica e composição de orquestra.

António Victorino compôs, ao longo de 40 anos, uma vasta obra, abrangendo os mais variados géneros musicais desde a música a solo, para piano e outros instrumentos, à música de câmara, música sinfónica e coral-sinfónica, passando ainda pelo "Lied" e a ópera, além de muitas composições para cinema ("O Cerco", de António da Cunha Telles, "Capitães de Abril", realizado pela filha, Maria de Medeiros, ou "Sons e Cores de Portugal", uma curta de Fernando Lopes), teatro ("A Relíquia", "O Inspector Geral" ou "Menino da Sua Avó", do Grupo A Barraca) e fado (no disco "Um Homem na Cidade", de Carlos do Carmo, por exemplo). É por isso também tido, sem dúvida, como um dos mais prolíficos compositores Portugueses.

Apesar da sua notoriedade tanto na música erudita como em outros meios, será talvez através da televisão que é mais imediatamente recordado. Ao longo dos anos participou e escreveu diversos programas na RTP e na SIC, como "Tema e Variações", "A Música e o Silêncio", "A Nota Sensível", "As Fontes do Som" e, talvez o mais popular, "Duetos Imprevistos", apresentado em parceria com Bárbara Guimarães. Todos estes formatos se debruçavam sobre a história e as histórias da música clássica, percorrendo os itinerários de vários compositores, sempre ao som das composições destes.

Coca-cola Killer, capa 1ª Edição
O mergulho nas letras deu-se sob a influência e incentivo de professores como Jorge Borges de Macedo ou António José Saraiva. Tal como em tudo o que fez, começou cedo, e publicou, até hoje, várias novelas, romances, ensaios, reportagens, contos e artigos em várias revistas. Além disso, escreveu textos para peças de teatro ("O Ventre de Jeremias", por exemplo), bem como guiões para possíveis filmes: "A Teia", "A Cidade da Memória" ou "História de Palhaços", por exemplo.

O primeiro romance de Victorino d'Almeida, "Coca-cola Killer", tornou-se, desde a sua publicação, uma obra geradora de algum culto em Portugal. Para isso muito contribui o estilo de escrita do maestro, que alia um vocabulário denso e rico a uma imaginação delirante, e os dois fundem-se (quase) perfeitamente numa série de situações absurdas e estrambólicas ao longo da narrativa.

Escrito na primeira pessoa pelo Killer do título, Marcelino Bandeira Fagundes da Gama, retrata a escalada social deste antes, durante e depois do 25 de Abril. Marcelino é um lambe-botas com tendências fascistas (todos os ingredientes estão lá: amor às hierarquias, sobranceria para com os "inferiores", xenofobia, etc), que se serve da sua completa falta de princípios e convicções para atingir o seu tão desejado posto, o patamar que lhe é reservado nos píncaros da ordem social e profissional.

"Devo mesmo dizer que a minha reabilitação se processou fulgurantemente, graças a um certo charme natural que sempre soube utilizar em sociedade, romano em Roma, flaviense em Chaves, nadador de vários estilos e correntes, camaleão de uma astúcia que me faria merecer, aos quarenta e oito anos, o alto posto que hoje ocupo."

Poder-se-ia dizer que Marcelino é um perfeito vira-casacas, mas até lhe falta a casaca. Marcelino será mais como uma cana que se dobra (por vezes literalmente) dependendo da direcção do vento. Aquilo que lhe falta em competência (e é muito) sobra-lhe em subserviência e egocentrismo. Este "yes man" vem ainda munido de uma perigosa arma: um vómito projéctil que lança, como um animal em perigo, cada vez que se sente ameaçado socialmente.

"O meu vómito actua como uma arma de combate, defensiva ou ofensiva, consoante os casos, mas sempre um instrumento de luta! Se uns se degladiam com os punhos, outros com os pés, à joelhada, à cabeçada, para já não evocarmos o recurso extremo às armas brancas e de fogo, eu sirvo-me do vómito, como os guerreiros da Idade Média utilizavam o chumbo fervente, por exemplo..."

Não se pense que as restantes personagens deste livro sejam menos ridículas do que Marcelino na sua insignificância. António Victorino faz desfilar, em menos de 300 páginas, um leque impressionante de figuras que vão desde um chico-espertismo do mais básico, à imbecilidade perfeita. O retrato que faz de certos círculos "intelectuais" e culturais resume-se num breve excerto onde, durante um dinner party, se discute filosofia, sendo que a discussão consiste, essencialmente, num exercício de name-dropping livre de qualquer reflexão ou raciocínio concreto.

"Esvoaçavam nomes que, desde a mais tenra infância, nos tempos em que os fedelhos vulgares se preocupam com berlindes e peões, me fascinavam ao mais alto grau de curiosidade: Sócrates, Aristóteles, Platão...
Não resisti! Avancei pela sala, integrei-me na conversa e confessei a minha fraqueza:
 - Quem me tira os gregos, tira-me tudo!
Elisabeth fixou-me demoradamente, numa atitude de meditação, e comentou:
 - Os filósofos gregos eram muito inteligentes, mas eu prrefirro os alemães... Os alemães são os mais inteligentes: Hegel, Kant, Schopenhauer, Heidegger...
Uma voz inoportuna, daqueles peguilhentos que tudo reduzem a ninharias de pormenor, interpôs-se lá no fundo:
 - O Heidegger era dinamarquês...
Ao que eu respondi, com não disfarçado desdém:
 - Um nórdico, pronto! Tanto faz...
O sujeito calvo, entretanto, coçava a nuca, a expressão reticente, buscando uma argumentação persuasiva:
 - E então os filósofos franceses? - acabou por indagar.
 - Também são inteligentes - concordou a Betinha - mas muito mais superficiais...
Em meu entender era uma opinião respeitável, embora discutível - modesta réplica que levou a minha interlocutora a bater as palmas, jubilosamente, a exclamar:
 - É uma ideia óptima! Bamos discutirr! Bamos discutirr!"

E, se dúvidas restarem de que estas personagens se encontram presas a estratégias de pensamento absolutamente patéticas (apesar de acreditarem estar a ter, e cito, "uma discussão bem estruturada e aglutinadora"), note-se como Marcelino "reflecte" na melhor forma de "ganhar a conversa":

"...pois em todas as discussões, mormente nas filosóficas, o segredo da vitória reside na escolha dos elementos postos em jogo -  e não há quem resista ao impacto de um Pascal atirado de chofre..."

Este é um mundo onde se movimentam as figuras de "Coca-cola Killer", um livro que, segundo o autor, retrata memórias de certas experiências e certos personagens que conheceu, reelaborados de forma humorística e irónica. É também um retrato mordaz de certos animais sociais que são como as baratas, sobreviventes do Estado Novo e das comoções históricas pós-25 de Abril.

António Victorino d'Almeida, apesar das suas muitas actividades, privilegia sempre a música, afirmando que esta é o elo que dá consistência a tudo o que faz, incluindo a escrita. Torna-se visível, em certas passagens do "Coca-cola Killer, que Victorino tem sempre "música na cabeça", não resistindo a evocar por nome vários momentos musicais que pontuam a narrativa. O primeiro desses momentos acontece precisamente no capítulo inicial, no qual o respeitável Marcelino ("homem sério, sem taras nem vícios"), em pleno Domingo de Páscoa, se conta entre os espectadores de um filme pornográfico, intitulado "Estou por tudo, desde que me pagues em dólares, meu amor!". É aí que, qual reflexo proustiano, ouve uma canção que lhe traz memórias maternas:

"Uma voz começou a trautear a «Fascination», canção que muito respeito, pois era a melodia preferida de minha mãe, mesmo quando já se encontrava no manicómio. Cantava-a em dueto com um ajudante de enfermagem, perante o entusiasmo sincero de todos: doentes mentais, clínicos e pessoal adjunto."

"Fascination" é uma popular valsa editada em 1932, e desde então cantada por vários artistas de renome (Dinah Shore e Nat King Cole, por exemplo). Mas ganhou inicialmente notoriedade cantada por Jane Morgan, para a banda sonora do filme "Love in the Afternoon", de Billy Wilder.


Mais adiante, durante a escalada social de Marcelino rumo ao seu posto de destaque, este começa a frequentar, convidado pelo amigo e conselheiro Dr. Catita das Neves, a casa da escritora, poetisa, dramaturga, musicóloga, ensaísta ("autêntica personalidade de esquerda") e futura sogra, Clotilde Maria Remarque ("não aparentada, convém esclarecer, com um alemão do mesmo apelido, que também escrevia"). Clotilde Remarque é apaixonada pela Arte, pela Cultura e, especialmente, pelas lagostas. À sua mesa sentam-se figuras de várias áreas e profissões, e a sua moradia na Rua das Janelas Verdes faz as vezes de "«foyer» de artistas, intelectuais e comerciantes de marisco". É num destes convívios que o autor, António Victorino, nos confronta com uma opinião assaz radical de Clotilde Remarque no que toca a compositores clássicos:

"Uma das atracções da casa, para além da ininterrupta permuta de mansagens culturais, saraus de poesia, recitais de acordeão, colóquios, conferências, era um aquário com lagostas que se movimentavam languidamente em molho de «mayonnaise», ao som da música de Boccherini ou de Alberto Nepomuceno, compositor brasileiro que a anfitriã venerava a ponto de o considerar o Messias de que Beethoven fora apenas um profeta!"

Alberto Nepomuceno (1864-1920)
Quem é então este compositor brasileiro que pode colocar assim em xeque o criador da "Nona"?

Nascido em Fortaleza, em 1864, Nepomuceno é considerado o pai do nacionalismo na música erudita brasileira. Afirmando que "Não tem pátria um povo que não canta em sua língua", o compositor criticava abertamente aqueles que defendiam que a língua portuguesa não era adequada para o bel canto. Esta sua luta pela nacionalização foi marcada por um concerto histórico em 1895, onde apresentou, no Instituto Nacional de Música, um conjunto de canções de sua autoria, escritas em português. Durante os anos seguintes, promoveria ainda o reconhecimento de compositores brasileiros. A colectânea de canções que apresentou no Instituto foi editada em 1904 pela Vieira Machado & Moreira de Sá, sob o título "Garatuja". É considerada a primeira ópera verdadeiramente brasileira no que toca quer à música, quer à ambientação e utilização da língua portuguesa. Entre as suas composições contam-se ainda outras óperas ("Ártemis", "Porangaba", "Electra"), bem como um extenso currículo que inclui música de câmara, vocal, orquestral e música sacra. Nepomuceno compôs ainda obras de carácter modernista, chegando a experimentar com politons nas suas "Variações para piano, opus 29".

Se será ou não o Messias, fica ao critério de cada um. Para terminar deixo três composições do "brasileiro", incluindo uma das minhas favoritas, "Improviso Op.72 No.2 (Impromptu). E, se me permitem parafrasear o pequeno Berlioz (não o romântico, mas o Aristogato):

"Isso não é Beethoven mamãe, mas tem um balanço!

Alberto Nepomuceno - Improviso Op. 72 No. 2 (Impromptu)

Alberto Nepomuceno - Quarteto de Cordas No. 2 em Sol Menor

Alberto Nepomuceno - Nocturne Op. 33


sábado, 5 de abril de 2014

Últimas Notas // Adenda #1: Percy Bysshe Shelley

Percy Shelley, Mary Shelley e Lord Byron em "Bride of Frankenstein", de James Whale (1935)

Publicado em "Poetical Works", 1839, 1ª edição. 1817 

Silver key of the fountain of tears,
Where the spirit drinks till the brain is wild;
Softest grave of a thousand fears,
Where their mother, Care, like a drowsy child,
Is laid asleep in flowers.