quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Um Hino para Marte // Adenda #1: Outras viagens interplanetárias




A popularidade da suite orquestral "The Planets Op. 32", de Gustav Holst, não se limitou apenas à época em que foi apresentada ao grande público, ou sequer ao universo da música clássica. Outros compositores chegaram mesmo, por uma variedade de razões, a produzir música adicional para acompanhar a obra de Holst. Assim, conhecem-se hoje composições para outros astros "deserdados" por Holst (que não queria ter mais nada a ver com "The Planets", pela forma como ofuscava a sua restante obra). Plutão, descoberto quatro anos após a morte de Holst, recebeu uma suite própria ("Pluto the Renewer") pela mão do inglês Colin Matthews, em 2000. E em 2006, a Berlin Philarmonic comissionou a quatro compositores a criação de uma suite orquestral de quatro movimentos, baseados em asteróides de relevância no Sistema Solar. São eles:

Asteroid 4179: Toutatis (composição de Kaija Saaiaho)
Towards Osiris (composição de Matthias Pintscher)
Ceres (composição de Marc-Anthony Turnage)
Komarov's Fall (composição de Brett Dean)

A composição de Gustav Holst para "The Planets" foi originalmente pensada para um dueto de pianos (e um único orgão no caso do movimento de Neptuno). O movimento para o planeta Marte, nesse caso, soará assim:

 Pianistas: Len Vorster & Robert Chamberlain

Talvez devido à dimensão "cósmica" do trabalho de Holst, são vários os grupos de rock progressivo que procuraram pegar em partes, ou na totalidade, da suite "The Planets" para as adaptarem à sua sonoridade exploratória. O movimento ligado a Marte, em particular, atrai este género de adaptações pelo seu ritmo poderoso e intimidante. É o caso, por exemplo, do grupo Emerson, Lake & Powell (uma outra encarnação dos bem mais conhecidos Emerson, Lake & Palmer), cujo primeiro álbum, epónimo, de 1985, inclui uma versão para "Mars, Bringer of War", também tocada pela banda durante os seus espectáculos.

Emerson, Lake & Powell - Mars, Bringer of War (1985)

Mais radical será o arranjo por parte dos King Crimson, incluído no seu segundo álbum de estúdio "In The Wake of Poseidon", de 1970. Trata-se de uma faixa construída em redor de citações de "Mars, Bringer of War", de Holst, além de outros devaneios sónicos e samples de músicas dos próprios Crimson. Por razões de copyright, a faixa foi titulada "The Devil's Triangle" e todo o crédito da composição surge atribuído a Robert Fripp, líder da banda.

 King Crimson - The Devil's Triangle (1970)

Além destes exemplos, a presença do movimento de Marte em composições da música rock nos anos 60/70/80 faz-se ainda notar pelas piscadelas de olho por parte dos Led Zeppelin (Jimmy Page improvisava sobre "Mars..." durante as longas versões de "Dazed and Confused" ao vivo) e dos Black Sabbath.

Saltando de género musical, são ainda exemplo as homenagens por parte de bandas de death metal (os Nile, na faixa "Ramses, Bringer of War" do seu álbum de 1998 "Amongst the Catacombs of Nephren-Ka") e da área da electrónica/industrial (a banda eslovena Laibach, no seu álbum "NATO", de 1994).

Laibach - Mars on River Drina (1994)

Como nota final, deixo a sugestão do blogue "Marte Ataca!", com várias publicações relativas ao planeta vermelho. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Um Hino para Marte



O planeta Marte ocupa um lugar de destaque na ficção científica. O interesse neste astro pode ser justificado pela sua proximidade da Terra, pela dramática cor avermelhada da sua superfície, e pelas hipóteses colocadas, aquando de diversas descobertas, sobre a existência de vida inteligente neste mundo.

Se várias obras abordam a perspectiva de uma exploração de Marte por parte da raça humana (ainda por concretizar no "mundo real"), não serão menos aquelas que imaginam os marcianos como uma raça hostil, disposta a atacar e conquistar os terráqueos seus vizinhos, muitas vezes por cobiçarem os seus recursos naturais. A "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells será porventura uma das mais conhecidas e influentes histórias que compõem este último grupo.

O autor americano Robert A. Heinlein fez de Marte seu objecto de escrita por diversas vezes, embora nunca de forma tão expansiva como no seu livro de 1961 "Stranger in a Strange Land", traduzido em Portugal como "Um Estranho Numa Terra Estranha". Este livro, uma das duas obras-primas que podem ser associadas a Heinlein (o outro lugar no pódio podendo ser atribuído a "The Moon is a Harsh Mistress", de 1967), conta a história de um humano nascido e criado em Marte. As circunstâncias da sua situação são semelhantes ao destino do menino Mowgli, no "Livro da Selva" de Rudyard Kipling. A primeira expedição humana a Marte resulta no desaparecimento de toda a tripulação, incluindo os pais do protagonista, que acaba sendo criado pela raça de seres extremamente inteligentes que habita esse planeta

Ao retornar à Terra, o "Homem de Marte" Valentine Michael Smith irá confrontar-se com uma cultura totalmente oposta àquela em que foi educado. Em Marte os conceitos de engano, guerra e inveja são inconcebíveis, e a vida após a morte é um dado adquirido, uma vez que o planeta é governado pelos espíritos dos marcianos ancestrais já falecidos. Além disso, esta raça possui um controlo total sobre o corpo e a mente, algo que se manifesta em Mike sob a forma de poderes psíquicos e telepáticos (incluindo a capacidade de fazer objectos e pessoas "desaparecer" na quarta dimensão). O enorme poder que Mike revela na Terra, aliado à sua imaculada inocência e ingenuidade, semelhante à de uma criança, tornam-no em algo assustador aos olhos do Governo Mundial, representado pelo Secretário-Geral Joseph Douglas.

Além da sua posição única na história da humanidade, Mike vê ainda a sua importância acrescida pelo facto de ser o único herdeiro de uma enorme fortuna, adquirida em grande parte à custa da invenção da sua mãe, que possibilita a realização de viagens interplanetárias a baixo custo. Mais ainda, a simples existência de Mike pode significar que este pode ser considerado, ao abrigo da lei terrestre segundo a qual Marte constitui terra nullius (apesar da existência, até então desconhecida, de uma raça de marcianos), como único dono de todo o planeta vermelho. Isto torna-o, compreensivelmente, no centro de um jogo de influências por parte do Governo Mundial, bem como da Mega-Igreja Fosterita.

Mike consegue escapar ao controlo do Estado com a ajuda de um leque de personagens humanas, onde se inclui a enfermeira Gillian, responsável pela sua fuga do hospital onde o prendiam, e o advogado-médico-autor Jubal Harshaw. É principalmente através do aconselhamento por parte de Jubal que Mike conseguirá tornar-se livre daqueles que o tentam influenciar, e capaz de realizar as profundas alterações às concepções humanas que constituem as duas últimas secções do livro.

Jubal possui bastante experiência a lidar com o pesadelo autoritário e burocrático em que o Governo Mundial se movimenta. Por isso aproveita cada ocasião para obter um acordo favorável a Mike, evitando a sua exploração por parte das diversas facções que o disputam. Esta influência por parte de Jubal é bastante visível durante a Conferência da Federação Mundial, que decorre como forma de apresentar oficialmente o Homem de Marte ao mundo, e também procurar afirmá-lo como aliado do Governo de Douglas. As características infantis de Mike, no entanto, podem transparecer fraqueza face ao experiente político que é Joseph Douglas. Daí que Jubal procure dar uma imagem forte a Mike, por todos os meios possíveis, mesmo que implique azucrinar a paciência de um oficial de protocolo.

"The Man from Mars will sit directly opposite the Secretary General, just about where he happens to be sitting. Then - Jubal got out a heavy soft pencil and attacked the seating chart. - this entire half of the main table, from here clear over to here, belongs to the Man from Mars." 
Jubal scratched two big black cross marks to show the limits and joined them with a thick black arc, then began scratching out names assigned to seats on that side of the table. "That takes care of half of your work ... because I'll seat anybody who sits on our side of the table."
The protocol officer was too shocked to talk. His mouth worked but no meaningful noises came out. Jubal looked at him mildly. "Something the matter? Oh-I forgot to make it official." He scrawled under his amendments: "J. Harshaw for V At Smith." "Now trot back to your top sergeant, son, and show him that. Tell him to check his rule book on official visits from heads of friendly planets."


A insistência de Jubal perante o desespero do oficial de protocolo não fica por aqui. Como representante de um outro planeta, Mike deverá ter direito, tal como o Secretário-Geral e os representantes das Colónias Lunares, a honras de estadista, incluindo uma bandeira:

But Harshaw remained poised to get up. "But where's the Flag of Mars? And how about honors?"
"I'm afraid I don't understand you."
"Never seen a day when I had so much trouble with plain English. Look- See that Federation Banner back of where the Secretary is going to sit? Where's the one like it over here, for Mars?"
LaRue blinked. "I must admit you've taken me by surprise. I didn't know the Martians used flags."

"They don't. But you couldn't possibly whop up what they use for high state occasions." (And neither could I, boy, but that's beside the point.)

E, claro, um hino que represente o planeta Marte:

Now about honors- maybe you're caught unprepared there, too, eh? You expect to play 'Hail to Sovereign Peace' as the Secretary comes in?"
"Oh, we must. It's obligatory."
"Then you'll want to follow it with the anthem for Mars."
"I don't see how I can. Even if there were one ... we don't have it. Dr. Harshaw, be reasonable!"
"Look, son, I am being reasonable. We came here for a quiet, small, informal meeting-strictly business. We find you've turned it into a circus. Well, if you're going to have a circus, you've got to have
elephants and there's no two ways about it. Now we realize you can't play Martian music, any more than a boy with a tin whistle can play a symphony. But you can play a symphony -'The Nine Planets Symphony.' Grok it? I mean, 'Do you catch on?' Have the tape cut in at the beginning of the Mars movement; play that . . . or enough bars to let the theme be recognized."


A sinfonia dos Nove Planetas a que Jubal se refere não existe. No entanto, existem duas formas de justificar a sua menção por parte do autor. É possível assumir que Heinlein inventou esta sinfonia para cumprir a sua função na história, pese o facto de que as sinfonias consistem no geral de quatro movimentos, no máximo cinco (mas nunca nove). É igualmente possível que Heinlein pensasse, embora não refira explicitamente, na suite orquestral "The Planets Op 32", composta pelo inglês Gustav Holst.

Esta composição é de longe a mais reconhecida de Holst, que aliás a via como um obstáculo à divulgação de outras composições suas, que considerava superiores. Consiste em sete movimentos, um para cada planeta do Sistema Solar (sendo inspirado por temas astrológicos, a Terra é excluída, e Plutão não havia, até à época, sido descoberto): Marte, Vénus, Mercúrio, Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. Todos os movimentos foram originalmente compostos para um dueto de pianos, excepto Neptuno (originalmente composto para um único órgão, por Holst achar que a percussão do piano não caía bem com um planeta tão misterioso). Foram mais tarde apresentados em público, na sua totalidade e na forma orquestral que os celebrizou, em 1920, pela London Symphony Orchestra, dirigida por Alfred Oates. O movimento relativo a Marte (subtitulado "The Bringer of War") é particularmente impressionante, devido à sua opulência. Foi inclusive visto na altura da sua estreia como uma "resposta" ao deflagrar da Primeira Guerra Mundial, embora Holst recusasse esta opinião, e afirmasse que esse movimento foi composto antes de ser esperado qualquer conflito na Europa.

A escolha do movimento de Marte por parte de Jubal tem, assim, a intenção não só de colocar o Homem de Marte e o Secretário-Geral do Governo Mundial numa situação de igual para igual, como pretende ainda apanhar de surpresa todos os presentes na Conferência, quer pela transmissão do "hino" de Marte, como pela sua natureza bélica e poderosa. Este escolha, pelo menos, parece ter o efeito esperado:

Jubal had considered having Mike remain seated while Douglas came in, but had rejected the idea; he was not trying to place Mike a notch higher than Douglas but merely to establish that the meeting was between equals. So, when he stood up, he signaled Mike to do so likewise. The great double doors at the back of the conference hall had opened at the first strains of "Hail to Sovereign Peace" and Douglas came in. He went straight to his chair and started to sit down. Instantly Jubal signaled Mike to sit down, the result being that Mike and the Secretary General sat down simultaneously - with a long, respectful pause of some seconds before anyone else resumed his seat. Jubal held his breath. Had LaRue done it? Or not? He hadn't quite promised - Then the first fortissimo tocsin of the "Mars" movement filled the room - the "War God" theme that startles even an audience expecting it.

Apesar de não ser claro se Heinlein se refere ou não à obra de Holst quando invoca o hino de Marte, não será concerteza precipitado procurá-la quando pretendemos musicar a cena que se desenrola nestas páginas de "Um Estranho Numa Terra Estranha". Como composição popular que é, existem muitos interpretações por onde escolher, cada uma com atributos muito próprios. Para ilustrar este texto escolhi a gravação de 1986, por parte da Royal Philarmonic Orchestra, conduzida por André Previn.



A coisa começa a aquecer lá para o fim do primeiro minuto. Se eu quisesse impressionar uma sala cheia de representantes e políticos, era aí que largava a agulha.