The Last Man - John Martin (1849). Pintura a óleo.
Mary Wollstonecraft Shelley conheceu o seu maior sucesso literário em 1818 com a publicação da novela de horror "Frankenstein: or, The Modern Prometheus". Fundindo literatura gótica com elementos do movimento Romântico, é também considerado como um dos mais antigos exemplos de ficção científica.
Em 1826 é publicado "The Last Man", uma nova incursão pela ficção científica, desta vez de tom apocalíptico. A premissa, que viria a servir de inspiração a outros autores do género (por exemplo, "I Am Legend", de Richard Matheson), ilustra a extinção progressiva da humanidade face ao aparecimento de uma peste altamente contagiosa e mortífera. São retratadas as convulsões sociais resultantes desta calamidade, bem como as alterações ao espírito humano quando confrontado com um carrasco impiedoso e imparcial. Finalmente, as hostes da raça humana são diminuídas até sobrar apenas um pequeno grupo, e desse grupo apenas um único sobrevivente, o último homem na Terra. Ao contrário de "Frankenstein...", o último romance de Mary Shelley não foi bem aceite, recebendo na verdade duras críticas que o rotularam de "doentio" e "cruel", e repudiaram o tom negro e depressivo da narrativa. Apesar das reacções (as piores de toda a sua carreira), a autora classificaria mais tarde a obra como um dos seus trabalhos favoritos. A má recepção fez ainda com que o romance conhecesse apenas duas edições em Londres e uma em Paris, não voltando a ser publicado até 1965, mais de 100 anos após a sua estreia. Felizmente, recebeu maior atenção no século XX, talvez porque o conceitos de "extinção da humanidade" e "último homem na Terra" se haviam entretanto tornado mais relevantes e prementes.
Tendo início no ano de 2093, "The Last Man" conta a história de Lionel Verney, inicialmente um órfão que cresce sem qualquer sentido de lei ou responsabilidade, mas que vem abraçar mais tarde, por influência do seu novo amigo Adrian, os ideais da civilização e da busca pelo conhecimento. Muitas das personagens centrais são total ou parcialmente inspiradas nas relações de Mary Shelley. Impossibilitada de publicar uma biografia oficial sobre o seu falecido marido (o poeta Percy Shelley), Mary pôde assim imortalizar as suas qualidades na personagem de Adrian. Outro dos protagonistas, Lord Raymond, é visto como um retrato ficcional de Lord Byron, grande amigo do casal Shelley. O próprio personagem central, Lionel, pode ser visto como um escape para os sentimentos de perda e solidão de Mary, após a morte de vários dos seus amigos e de duas das suas crianças.
O primeiro volume (de um total de três) conta a história da formação de ligações entre as principais personagens, criando um grupo de amigos unido e feliz. Este grupo inclui, além de Lionel, Adrian e Raymond, as mulheres Perdita (irmã de Lionel e esposa de Raymond) e Idris (irmã de Adrian e esposa de Lionel). A felicidade do grupo é, no entanto, ameaçada por diversos acontecimentos, entre os quais a participação de Raymond na guerra entre a Grécia e a Turquia. Durante estes eventos, a peste que dará mote à extinção da raça humana opera exclusivamente nos bastidores, e surge apenas mencionada em rumores dispersos.
Com o segundo volume surgem vários eventos trágicos, começando pela tomada de Constantinopla por parte do exército grego, liderado por Raymond. A cidade não oferece resistência, e espalha-se a informação de que todos os seus habitantes encontram-se já mortos por uma doença misteriosa. Desacreditando os temores que afectam o seu exército, Raymond atravessa os portões da cidade e é morto pela derrocada de um dos edifícios. A peste toma, a partir deste momento, uma existência muito real, e a sua influência estende-se por toda a Europa e as Américas. A alimentar o pânico gerado entre a população surgem ainda estranhas ocorrências, como o aparecimento de um Sol negro no céu. Por fim, após lavrar vários pontos do globo, a doença chega até Inglaterra, e poucos são poupados. A ordem social degrada-se, apesar dos esforços de Adrian (agora eleito Protector do país) para manter o controlo.
O volume final narra a peregrinação dos últimos sobreviventes de Inglaterra pela Europa em busca de um "paraíso natural" onde a peste não exerça a sua influência. Lionel, Adrian, Idris e as suas crianças contam-se entre este grupo. Após confrontarem um grupo de fanáticos religiosos em Paris, dirigem a sua busca para o clima frio da Suíça, perdendo pelo caminho cada vez mais companheiros para a doença. Ao chegarem ao seu destino, apenas Lionel, Adrian e as filhas de Idris e Perdita restam do grupo. Os quatro vivem durante um tempo felizes, viajam para Itália, mas aí o desastre ocorre novamente. Os restantes companheiros de Lionel desaparecem, e este torna-se, tanto quanto se sabe, o último sobrevivente da raça humana. O romance termina com o início do ano de 2100.
No seu todo, o livro lida com alguns temas polémicos que podem explicar a sua má recepção quando foi publicado. A humanidade é descrita, não como centro da criação, mas como vulnerável aos caprichos da Natureza, independentemente dos ideais românticos ou iluministas que possa desenvolver. No fim, Lionel vê-se sozinho num mundo recheado de grandes obras de arte de outros tempos (a narrativa termina em Roma, tida como capital artística do mundo para Mary Shelley), sendo ele o único que as pode agora contemplar. Quando morrer, desaparecerão também essas obras, e o Homem deixará de existir até em memória.
Entre as artes, a música encontra-se profundamente conectada, neste livro, ao desabrochar da imaginação e da criação. Lionel, durante a sua educação cultural por parte de Adrian, passa a ver o mundo com outros olhos e consegue perceber a beleza desta criação, natural ou por mãos humanas. A música complementa essa aprendizagem. Dentro da própria narrativa, Lionel comenta que a sua própria escrita é influenciada musicalmente. Tratando-se de um relato na primeira pessoa, essa inspiração encontra-se também, implicitamente, no romance. Mary Shelley, de resto, inspirou-se para a composição de "The Last Man" em diversas peças musicais, muitas delas tocadas pelo seu amigo Vincent Novello, organista da capela da embaixada Portuguesa em Londres.
Jean de Palacio, especialista em literatura dita decadente e autor de uma tese de doutoramento em Mary Shelley, defende que alusões a compositores e peças espalhadas pelo romance formam uma espécie de banda sonora imaginária para a acção. Existe uma transição de melodias e canções simples no início do romance, para composições mais complexas (Mozart) no fim do primeiro volume, e daí para peças mais solenes (Weber) no início do segundo volume.
Numa passagem em particular, durante a peregrinação do reduzido grupo de amigos até à Suíça, é citada explicitamente uma composição de Joseph Haydn - Die Schöpfung, ou A Criação. Isto ocorre após um "Adeus à Música" por parte de Lionel no início do terceiro volume.
"Farewell to music, and the sound of song; to the marriage of instruments, where the concord of soft and harsh unites in sweet harmony, and gives wings to the panting listeners, whereby to climb heaven, and learn the hidden pleasures of the eternals!"
A Criação, um oratório composto entre 1796 e 1798, é por muitos considerado como a obra-prima do compositor. Nele, celebra-se a génese do mundo conforme narrada na Bíblia, e no poema Paradise Lost, de Milton. É escrito em três partes: a primeira celebra a criação da luz, do mundo e outros corpos celestes, bem como as massas de água, o clima e a vida vegetal; a segunda parte abrange a criação das criaturas marinhas, aves, outros animais e, finalmente, o Homem; a terceira parte tem lugar no Jardim do Éden, e narra as primeiras horas de felicidade do casal Adão e Eva. Das obras de Haydn, A Criação foi a que mais tempo consumiu ao compositor, que tratou da sua concepção como se de uma tarefa religiosa se tratasse. A primeiras performances tiveram lugar em 1798, perante um grupo de cidadãos de classe alta, no Palácio Schwarzenberg, em Viena.
No texto de Mary Shelley, a citação da obra de Haydn resume-se a um curto momento, durante o qual os poucos sobreviventes da peste conseguem recordar-se da música que era uma constante nas suas vidas antes da calamidade. O ar enche-se com notas musicais, e surpreende-os por terem estado privados da sua companhia durante tanto tempo.
"The evening was marked by another event. Passing through Ferney in our way to Geneva, unaccustomed sounds of music arose from the local church which stood embosomed in trees, surrounded by smokeless, vacant cottages. The peal of an organ with rich swell awoke the mute air, lingering along, and mingling with the intense beauty that clothed the rocks and woods, and waves around."
O narrador (Lionel Verney) prossegue, conferindo à música uma natureza sagrada, divina:
"Music - the language of the immortals, disclosed to us as the testimony of their existence - music, «silver key of the fountain of tears», child of love, soother of grief, inspirer of heroism and radiant thoughts, O music, in this our desolation, we had forgotten thee! Nor pipe at eve cheered us, nor harmony of voice, nor linked thrill of string; thou camest upon us now, like the revealing of other forms of being; and transported as we had been by the loveliness of nature, fancying that we beheld the abode of spirits, now we might as well imagine that we heard their melodious communings. We paused in such awe as would seize on a pale votarist, visiting some holy shrine at midnight; If she if she beheld animated and smiling, the image which she worshipped. We all stood mute; many knelt. In a few minutes however, we were recalled to human wonder and sympathy by a familiar strain."
Também Haydn, durante a composição da sua A Criação, afirma que atingiu um pico na sua devoção a Deus, e ajoelhava-se cada dia pedindo forças para terminar a sua obra. Os sobreviventes neste cena de The Last Man sentem uma devoção semelhante, e só após pararem para dar graças por esta benção da música é que a podem apreciar tempo suficiente para a conseguirem identificar.
"The air was Haydn's «New-Created World» and, old and drooping as humanity had become, the world yet fresh as at creation's day, might still be worthily celebrated by such an hymn of praise."
Apesar de a humanidade se ver confrontada com o seu fim iminente, o mundo não parece ter envelhecido um dia desde a sua concepção, e assim continuará ainda após o último dos homens abandonar a Terra. O cenário natural em que se encontram contribui para esta última homenagem à beleza da terra que os acolheu durante tanto tempo. Por fim, após estas considerações, o mistério da proveniência da música que ouvem é revelado.
"Adrian and I entered the church; the nave was empty, though the smoke of incense rose from the altar, bringing with it the recollection of vast congregations, in once thronged cathedrals; we went into the loft. A blind old man sat at the bellows; his whole soul was ear; and as he sat in the attitude of attentive listening, a bright glow of pleasure was diffused over his countenance; for, though his lack-lustre eye could not reflect the beam, yet his parted lips, and every line on his face and venerable brow spoke delight. A young woman sat at the keys, perhaps twenty years of age. Her auburn hair hung on her neck, and her fair brow shone in its own beauty; but her drooping eyes let fall fast-flowing tears, while the constraints she exercised to supress her sobs, and still her trembling, flushed her else pale cheek; she was thin; languor, and alas! sickness, bent her form."
A música tem origem, portanto, nos gestos de uma jovem, ainda capaz de manter um esforço para criar as notas musicais que fazem as delícias dos seus ouvintes, apesar de ela própria se encontrar já consumida pela mesma doença que calou tantos outros da sua espécie.
A Criação de Haydn foi originalmente composto para um total de três solistas vocais, um coro de quatro vozes, e uma grande orquestra clássica incluindo instrumentos de sopro, secções de cordas e harpsicorda ou piano forte. O objectivo do compositor era obter um som poderoso. Para a estreia frente ao público, foram usados cerca de 120 instrumentistas e 60 cantores.
Obviamente, pelo excerto apresentado, a música ouvida pelos sobreviventes não se assemelha a este portento que os contemporâneos de Haydn conheceram. Em vez disso, resume-se a um simples órgão de igreja, tocado por uma pianista solitária. Aqui a autora é certamente influenciada pela música tocada pelo seu amigo Vincent Novello, o organista já mencionado. Na verdade, Novello é responsável por um arranjo vocal desta obra de Haydn, acompanhado por órgão ou piano. Dois excertos deste arranjo são apresentados abaixo. Crê-se que o segundo excerto corresponde provavelmente à banda sonora para esta cena de The Last Man.
Vincent Novello (excerpt #1)
Vincent Novello (excerpt #2)
Para apreciar a obra-prima de Haydn em todo o seu esplendor, termino com A Criação completa, cantada no original (em alemão), a cargo do maestro Philipp von Steinaecker.



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